50 Tons de Cinza é Ruim? Uma Análise de Como um Livro Promete BDSM, Romance e Tensão... Mas Entrega Baunilha Gourmet



Poucos livros dividiram tanto opiniões quanto 50 Tons de Cinza. Alguns o tratam como um marco da literatura erótica moderna. Outros o enxergam como um dos romances mais superestimados das últimas décadas.

E, sinceramente?

Eu estou muito mais próximo do segundo grupo.

Isso não significa que o livro seja um desastre absoluto. Ele acertou em algo gigantesco: marketing. Conseguiu vender mais de 150 milhões de cópias, virou fenômeno cultural e fez muita gente descobrir que existia algo chamado BDSM.

O problema é que descobrir que existe BDSM é uma coisa.

Representá-lo de forma interessante é outra completamente diferente.

O curioso é que minha crítica nem é moralista. Não acho que romances precisem ensinar bons relacionamentos. Não acho que personagens precisem ser exemplos de virtude.

Meu problema é muito mais básico.

O livro simplesmente não convence.

Não convence como romance.

Não convence como drama.

Não convence como história de obsessão.

Não convence como fantasia BDSM.

E, principalmente, não convence que Christian Grey e Anastasia Steele deveriam despertar qualquer paixão inesquecível.

É como assistir alguém colocar uma Ferrari numa garagem...

...e depois descobrir que o motor é de um Fiat Uno 1.0.

A aparência vende potência.

Mas quando liga...

não sai do lugar.

1. O maior problema: Christian e Anastasia simplesmente não têm química


Romances vivem ou morrem por uma coisa:

química entre os protagonistas.

Você pode ter um enredo absurdo.

Pode ter dragões.

Pode ter vampiros.

Pode ter viagens no tempo.

Pode até ter um bilionário traumatizado que quer resolver seus problemas emocionais através de um contrato sexual.

Se existir química...

o leitor compra.

O problema é que Christian Grey e Anastasia parecem duas pessoas presas na mesma sala porque o roteiro trancou a porta.

A atração deles quase nunca nasce de interações naturais.

Ela nasce porque o livro diz que existe.

São duas coisas completamente diferentes.

A paixão acontece rápido demais



Anastasia conhece Christian.

Ele é bonito.

Rico.

Controlador.

Estranho.

E em poucas páginas ela já está completamente fascinada.

Mas...

por quê?

O livro responde algo como:

"Porque ele é misterioso."

Só que mistério, sozinho, não sustenta uma paixão.

Imagine conhecer alguém extremamente reservado.

Você pode sentir curiosidade.

Pode querer entender aquela pessoa.

Mas paixão exige convivência.

Exige momentos.

Exige vulnerabilidade.

Exige descobrir qualidades.

Aqui quase tudo depende do fato de Christian ser bonito e milionário.

É como se metade do romance pudesse ser resumida em:

"Ele é rico."

"Ele é bonito."

"Ele tem um helicóptero."

Ok...

Mas onde está a conexão emocional?


Christian parece um projeto de personagem, não uma pessoa



Existe uma enorme diferença entre um personagem complexo...

...e um personagem cheio de características.

Christian tem muitas características.

Bilionário.

Jovem.

Controlador.

Traumatizado.

Dominador.

Ciumento.

Gênio dos negócios.

Piloto.

Pianista.

Pratica BDSM.

Fala várias línguas.

Tem dezenas de habilidades.

Só que tudo isso junto cria um efeito curioso.

Ele parece menos um ser humano...

...e mais uma lista de desejos escrita por um adolescente.

É quase um personagem criado depois da pergunta:

"Qual seria o homem mais incrível possível?"

Resposta:

"Todos."

O resultado é um protagonista que impressiona...

mas raramente emociona.

Porque perfeição demais vira caricatura.


Anastasia também não ajuda


A protagonista vive repetindo como é comum.

Como não é bonita.

Como não entende por que Christian gosta dela.

O problema?

O livro insiste tanto nisso que ela acaba parecendo um recipiente vazio onde qualquer leitora possa se imaginar.

Essa estratégia funciona comercialmente.

Mas cobra um preço.

Ela tem pouca personalidade própria.

Muitas vezes parece existir apenas para reagir ao Christian.

Quando os protagonistas só funcionam juntos...

e mesmo assim não conversam de forma memorável...

temos um problema.

Grandes romances vivem dos diálogos.

Dos conflitos.

Das brincadeiras.

Das diferenças.

Aqui boa parte das conversas gira em torno de:

"Assine o contrato."

"Não quero assinar."

"Mas assine."

"Não."

"Talvez."

"Vamos conversar sobre o contrato."

Parece uma reunião de RH com mais tensão sexual.


A paixão é declarada antes de ser construída



Essa talvez seja minha maior crítica.

O livro constantemente informa que eles estão apaixonados.

Mas quase nunca mostra por que.

Narrativamente isso faz toda diferença.

Imagine dois personagens que passaram meses juntos.

Que enfrentaram dificuldades.

Que compartilharam medos.

Que aprenderam a confiar.

Quando eles dizem "eu te amo"...

o leitor sente.

Agora imagine dois personagens que passaram boa parte do tempo negociando cláusulas contratuais.

O "eu te amo" soa como um atalho do roteiro.

É emoção por decreto.

Não por construção.

E romances vivem justamente da construção.


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